segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Os olhos do meu avô

OS OLHOS DO MEU AVÔ
Fernandda Irala Gomes


Estefan Zborowski - Na Alfaiataria Zborowski

Nessa tarde mormacenta
Tomando quieto meu mate,
Uma imagem vem de longe...
Parece que de um cantinho
Logo depois do horizonte...
De um lugar iluminado
Onde o sonho se aninhou...
Uma imagem vem de longe:
Os olhos do meu avô!

É uma imagem distante
Trêmula qual sol no horizonte,
Mas de uma emoção tão presente
Que descortinou das lembranças
As histórias que ele contava.

Meu avô era assim:
Misto de olhos e lembranças,
Taura que o tempo guarda nos livros...
Relíquias que a saudade vem contar!

Os olhos do meu avô!

Talvez eu nem saiba ao certo,
Mas sinto que me acompanham
E sentir é o fundamento
Que me faz continuar o mate,
Lindeiro das minhas saudades...
Vertente das minhas lembranças.

Do passado ao futuro
Januário Araújo é assim...

Foi assim... Será assim!
Guri dado que não aceitou seu destino...
Contraponteou com sua faca
O fio malino da vida!

Se fez homem, se fez pai,
Se fez rei no seu mundo...
Se fez, dito por todos,
Um homem de bem
Acima de tudo!

Mas suas histórias
Foram seu maior legado,
E são elas que me vêm
Nessa tarde mormacenta...
Que o vento quase parando
Sussurra ao meu ouvido.

E pra endossar o que digo
Se achegam ao pé do ouvido
“Gracias” dos muitos que se foram,
Homenageados com sua destreza...
Lembranças em pedra-sabão!

Ainda vejo em meus sonhos
A sua estampa gaúcha
Chegando num fim de tarde
Da lida bruta do campo.
Um pouco antes da janta,
Limpando o rosto suado
Em uma bacia velha
Que lavava até pecado!

Os olhos do meu avô
Percorreram o continente...
Viram guerras, viram dores,
Mas eram olhos de paz.

Não foram corrompidos
Com a perversidade de outros...
Se fez amigo dos bichos,
Talvez por encontrar nesses
A liberdade que já não via nos homens.

Meu avô era assim:
General de pátio e fogão!
Ergueu sua casa e sustentou
Sua família com as próprias mãos,
E embaixo das árvores que plantou
Tomava o seu chimarrão!

Agora a tarde se fina
E com os olhos marejados
Tomo meu último mate.

Na vida, são poucas coisas que trago,
Mas estas lembranças que tenho,
Certamente guardo pra os filhos
Que ainda terei.

Tentando me recompor
Desse momento pequeno, mas eterno...
Dessas lembranças que tenho
E das quais me sustento...
Vou lavar o meu rosto
Pois a janta já me espera
E na mesma bacia velha
Que o tempo não extraviou,
Ao fundo da água vejo...
...os olhos do meu avô.

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