quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Eu, eu mesma, eu com câncer... PARTE I



Desde quando descobri o câncer venho refletindo sobre o que realmente é essencial na vida. Até este evento, minha vida seguia conforme o esperado aos padrões dessa sociedade: jovem, saudável, bonita, graduada, concursada pública, vida financeira estável (com conforto, mesmo que sem luxo), casada e planejando os filhinhos. Tudo dentro do que a sociedade considera desejável e “normal” na vida das pessoas.
Entretanto, ao me descobrir com uma doença grave, ainda mais um câncer, com todos os seus medos e tabus, me deparei com a grande vulnerabilidade humana: nossa pequenez diante da Vida e com isso a constatação de que tudo que é material e exterior nos pode ser tirado da noite para o dia. De uma hora para outra podemos perder a saúde, a beleza, o dinheiro, o emprego, o prestígio social e tudo aquilo que talvez passamos horas, dias, anos ou décadas nos dedicando.
É como se me deparasse com minha humanidade, porque a possibilidade da nossa finitude nos convoca a encarar a realidade de que somos seres humanos frágeis, limitados, pequenos diante das Leis que regem o Universo. Todos, sem distinção – do rei ao mendigo – essa é realidade dura: de que não temos controle sobre as Leis da Vida e que a única certeza que temos é a da morte, por mais que insistamos em viver como se ela nunca fosse nos alcançar.
Diante de tudo isso, pergunto: o que realmente importa? Se tudo o que é externo, aparente e material é perecível e temporário, o que realmente importa na vida?
Alguns dirão: O que importa é ser feliz! Mas o que é felicidade? Se vemos um mundo em que as pessoas buscam incessantemente e a qualquer custo ter “sucesso” que é sinônimo de dinheiro, beleza, prestígio social, poder, e tudo aquilo que inflama o ego. Será que nosso conceito de felicidade não está equivocado? Se colocamos aí a nossa fonte de felicidade, ela também será temporária, perecível, como o são todas estas coisas...
Essa “perfeição” que a sociedade exige que tenhamos em todos os aspectos da vida nos faz loucos em busca de uma promessa irreal e falsa de felicidade. Todos já tiveram a sensação de obter algo material que queria muito e após conquistar e ter um instante de felicidade, qual a sensação? OK, e agora? – vazio – nova meta. Ou seja, é interminável, insaciável essa busca. Como o viciado que nunca se satisfaz, sempre quer mais e mais...
Então o que realmente importa na vida? Tenho refletido muito sobre o amor, que damos e recebemos. Porque quando estamos nessa situação de doença, nós e os outros sentimos emoções muito fortes, intensas, medos... E nesse momento demonstramos (a as vezes redescobrimos) o quanto amamos aquele familiar, o companheiro ou companheira. Parece que cai o “véu” do personagem que representamos nesta sociedade para sermos nós mesmos, na nossa essência, pequenos e vulneráveis. Alguém que admite precisar do outro, e o outro que admite precisar de ti. Viver estas emoções, estes sentimentos, não tem preço. Nessas horas sentimos paz no coração, sentimos alegria, nos sentimos vivos.
Mas será que precisamos esperar estes momentos emocionalmente fortes como doença, morte de um ente querido, etc., para demonstrarmos estes sentimentos? Para “baixarmos a guarda” e conseguirmos dizer: eu preciso de você, eu te amo? Para termos atitudes de cuidado, proteção, gentileza, carinho? Quantas oportunidades estamos perdendo todos os dias? E a má notícia é que o tempo é implacável. Ele não volta... (continua...)

Thaise Da Rocha Ferraz


24 de setembro às 14:52 ·